domingo, 30 de abril de 2006

COMO VOCE PÔDE?


Amizade... Posted by Picasa

Quando era um filhote, eu o distraia com minhas travessuras e
o fazia rir.

Você me chamava de sua criança e, apesar de um certo número de sapatos
mascados e um par de almofadas destruídas, eu me tornei sua melhor amiga.
Sempre que eu fazia algo errado, você chacoalhava seu dedo para mim e dizia:
"Como você pôde?" - mas depois você se arrependia e me rolava no chão para
me coçar a barriga. Meu treinamento demorou um pouco mais do que o esperado
porque você estava ocupado demais, mas, juntos, nós conseguimos dar um
jeito.

Eu me lembro daquelas noites em que me aninhava a você na cama e ouvia
suas confidências e sonhos secretos - e acreditava que a vida não poderia
ser mais perfeita. A gente fazia longos passeios e corridas no parque,
andava de carro e parava para um sorvete (eu ganhava só a casquinha porque
"sorvete não faz bem para cães" você dizia) e eu tirava longos cochilos ao
sol enquanto aguardava sua volta para casa ao final do dia.

Aos poucos você passou a gastar mais tempo no trabalho e com sua
carreira e levava mais tempo procurando por uma companheira humana.
Eu esperei por você pacientemente, confortei-o em suas mágoas e desilusões,
nunca o repreendi por suas escolhas ruins, e vibrei de alegria nas suas
vindas para casa e quando você se apaixonou... Ela, agora sua esposa, não é
uma "apreciadora de cães" - ainda assim eu a recebi em nossa casa, tentei
mostrar-lhe afeição, e a obedeci. Sentia-me feliz porque você estava feliz.

Então vieram os bebês humanos e eu reparti com você o entusiasmo. Eu
estava fascinada por seus tons rosados, seu cheiro, e queria muito cuidar
deles também. Mas ela e você tinham medo de que eu pudesse machucá-los, e eu
passei a maior parte do tempo sendo banida para outra sala ou para a casinha
de cachorro.. Oh, como eu queria tê-los amado, mas eu me tornei uma
"prisioneira do amor".

À medida que foram crescendo, me tornei amiga deles. Eles se agarravam
ao meu pêlo e se levantavam sobre perninhas trôpegas, enfiavam os dedos em
meus olhos, examinavam minhas orelhas, e davam beijos em meu nariz.
Eu adorava tudo isso e o toque de suas mãozinhas - porque o seu toque agora era
tão raro - e eu os teria defendido com minha própria vida, se fosse preciso.
Eu me esgueirava para suas camas e escutava suas inquietações e sonhos
secretos, e juntos esperávamos pelo barulho de seu carro no caminho.

Houve um tempo, quando alguém perguntava se você tinha cachorro, em
que você tirava uma foto minha de sua carteira e contava histórias sobre
mim. Nos últimos anos você apenas respondia "sim" e mudava de assunto.
Eu passei de "seu cão" para "apenas um cachorro" e você reclamava de cada gasto
que tinha comigo. Agora você tem uma nova oportunidade de carreira em outra
cidade e vocês irão se mudar para um apartamento onde não permitem animais.
Você tomou a decisão acertada para sua "família", mas houve um tempo em que
eu era sua única família.

Fiquei excitada com o passeio de carro até que chegamos ao abrigo de
animais.O local tinha cheiro de gatos e cães, de medo, de desesperança.
Você preencheu a papelada e disse: "Sei que vocês encontrarão um bom lar
para ela...".
Eles deram de ombros e lançaram a você um olhar compadecido.
Eles compreendem a realidade que espera um cão de meia idade, mesmo um com
"papéis". Você teve que desgarrar os dedos de seu filho de minha coleira
enquanto ele gritava "Não, papai! Por favor, não deixe que levem meu cão!".
E eu me preocupei por ele, e com a lição que você tinha acabado de lhe dar
sobre amizade e lealdade, sobre amor e responsabilidade, e sobre respeito
por todo tipo de vida.Você deu um afago de adeus em minha cabeça, evitou
meu olhar e, polidamente, recusou levar minha coleira e guia com você.Você
tinha um tempo-limite para encarar e agora eu também tenho um.

Depois que você partiu as duas simpáticas senhoras que o atenderam
comentaram que você provavelmente soube meses atrás da mudança que ocorreria
e não fez nenhuma tentativa de encontrar um novo lar para mim. Elas
sacudiram a cabeça e disseram "Como você pôde?". Elas são tão atenciosas
para nós aqui no abrigo quanto seus ocupados horários permitem.

Elas nos alimentam, é claro, mas eu perdi meu apetite dias atrás. De
início, sempre que alguém passava pelo meu alojamento, eu corria para a
frente, na esperança de que fosse você - que você tivesse mudado de idéia -
que isto fosse tudo um sonho mau... Ou eu esperava que ao menos fosse alguém
que se importasse, alguém que pudesse me salvar. Quando percebi que não
poderia competir com os alegres filhotes, inconscientes de seus próprios
destinos, nas brincadeiras para chamar atenção, afastei-me para um canto
distante e aguardei.

Ouvi seus passos quando ela veio até mim ao final do dia e a segui ao
longo do corredor para uma sala separada. Uma sala deliciosamente
silenciosa. Ela me colocou sobre a mesa, acariciou minhas orelhas, e
disse-me para eu não me preocupar. Meu coração se acelerou na expectativa do
que estava para vir, mas havia também uma sensação de alívio.
A prisioneira do amor havia esgotado seus dias.

Como é de minha natureza, estava mais preocupada com ela. O fardo que
ela carrega é demasiado pesado, e eu sei disso, da mesma maneira que
conhecia cada um de seus humores. Ela gentilmente colocou um torniquete em
volta de minha perna dianteira, enquanto uma lágrima corria por sua face.
Lambi sua mão do mesmo modo como costumava fazer para confortar você há
tantos anos atrás. Ela habilmente espetou a agulha hipodérmica em minha
veia. Quando senti a picada e o líquido frio se espalhou através de meu
corpo, deitei a cabeça sonolenta, olhei dentro de seus olhos gentis e
murmurei "Como você pôde?".

Talvez por ter entendido meu linguajar canino, ela disse "Sinto
tanto!", abraçou-me e apressadamente explicou que era seu trabalho fazer com
que eu fosse para um lugar melhor onde não seria ignorada, ou maltratada ou
abandonada, nem ter que me virar para sobreviver - um lugar de amor e luz,
tão diferente deste lugar terrestre.
E com minha última gota de energia tentei transmitir-lhe com uma sacudidela de minha cauda que meu "Como você pôde?" não era dirigido a ela.

Era em você, Meu Amado Dono, que eu estava pensando. Pensarei em você
e esperarei por você eternamente. Possa alguém em sua vida continuar a
demonstrar-lhe tanta lealdade...


Texto de: Jim Willis

Tradução: Sílvia Schiros

4 comentários:

Anônimo disse...

Adorei o texto,é bem tocante...
Sinceramente chorei ao ler sou louca por cães e até agora dos contos q li esse foi o melhor...

cleinha disse...

nunca um texto sobre caes me fez chorar tanto como este,sou fascinada por caes e esse texto é muito forte,queria que todos os seres humanos gostassem deles tbm,pq esses bichinhos só trazem felicidades a nossa vida bjusss...cleia

Neto_kao disse...

Nossa amei esse site...tô com o coração frio e chorando, esse texto é divino, parabéns.

Flaviana Silva disse...

Ontem veio a falecer minha cachorrinha Sheron,
Ela era mto carinhosa, esteve comigo sempre que via que algo estava errado, ela vai faser mta falta pois ela dormia comigo do meu lado, morreu com 16 anos, que Deus cuide dela pra mim, pois ela vai fase mta falta, nininha como a chamava, ficara eternamente em meu coracao, va em Paz linda!